A mentira de Steve Jobs
13.01.07 2:33
O iPhone tem menos de uma semana de vida e sua história já cabe num livro. O último capítulo vem do próprio Steve Jobs, numa declaração no mínimo infeliz.
“Você não quer seu [ml]celular[/ml] numa plataforma aberta. Ele precisa funcionar quando você precisa usá-lo. A Cingular não vai gostar se sua rede da Costa Oeste [dos EUA] cair por que um software a bagunçou”.
Ahn? O mago da Apple quer dizer que um software de celular pode derrubar a rede da operadora? A declaração está na coluna de Steven Levy na Newsweek desta semana.
Quantos [ml]smartphones[/ml] há no mercado? Só em 2005 foram vendidos 37,4 milhões deles, num aumento de 75,5% em relação a 2004, de acordo com o Gartner. A previsão é que 2006 tenha registrado um aumento de 66%.
Como já escrevi, por definição, um smartphone é um celular que recebe softwares do próprio fabricante ou de terceiros, instalados pelo usuário. Podem ser joguinhos simples ou planilhas para uma força de vendas, atingindo aplicações antes possíveis só em notebooks.
Não há um caso na história dos smartphones de um aparelho que derrubou a rede de uma operadora por causa de um software instalado. E há muitos programas disponíveis para eles. Veja apenas o caso do SymbianGear, site para compra de programas. Até hoje, 31452 softwares diferentes foram colocados à venda, para celulares da [ml]Nokia[/ml], [ml]Samsung[/ml], [ml]Motorola[/ml], [ml]Sony Ericsson[/ml] e outros fabricantes.
É possível, claro, que um programa mal instalado cause conflitos no celular, bagunçando a tela ou até travando funcionalidades. Mas, na maioria dos casos, tudo é resolvido com a opção de reset disponível no menu. Perdem-se dados, mas fica o celular. Por isso é sempre bom confirmar que tal programa roda no smartphone em questão - informação sempre presente nos serviços de venda.
Steve Jobs está jogando e mente. Sabe que a Apple vai ser fustigada se bloquear seu iPhone apenas aos programas vendidos pela Cingular, já que bradou as virtudes do OS X instalado, com possibilidade de rodar aplicativos “com qualidade dos do desktop”.
A [ml]Apple[/ml] fez a indústria da música e do cinema se curvarem frente ao poder de fogo da loja iTunes. Com a Cingular, no entanto, o papo parece ser bem diferente. Com a palavra, Glenn Lurie, presidente de distribuição da operadora:
“Não acho que fizemos concessões. No fim das contas, a Apple teve que se curvar. Se você quiser um iPhone, terá a vantagem de estar na rede da Cingular”.
Lurie, no entanto, concorda que “há pessoas más por aí que desbloqueiam celulares”, mas revela que trabalha com a Apple para dificultar a tarefa.
Insisto no tema porque ele definirá a personalidade do iPhone. Um celular bonitinho, com uma bela interface, mas restrito? Ou O celular que fará Nokia, Sony Ericsson, Samsung e Motorola se curvarem aos programas sensacionais criada por uma comunidade de empresas e usuários apaixonados pelo potencial do OS X e do aparelho? Em jogo está a capacidade da Apple de revolucionar a indústria de celulares e de criar uma terceira indústria, depois do Macintosh para a computação pessoal e do iPod para a música portátil digital.
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Não vou entrar na briga da qualidade dos produtos da Apple. Mas acho que já vi essa história acontecer antes, quando um tal de “Mac OS” competia com um tal de “Windows”. O Mac podia ser melhor em vários aspectos, mas perdeu a briga como plataforma “padrão” em muitos lugares justamente por ser “exclusivo” e “dificultar” as coisas. Enquanto a Microsoft fechou os olhos para padrões de linguagem ou pirataria, em troca de ter seu sistema difundido mundialmente, já que poderia ser instalado em qualquer 286 furreca vendido desde o Brasil até a Índia, a Apple se orgulhava de ter um micro incrível, funcional e revolucionário, mas que somente uma fração do mundo tinha acesso.
Se a revolução do iPod foi democratizar a utilização do MP3 ambulante, fazendo as pessoas trocarem seus Walkmans e Diskmans por MP3 players pequenos e poderosos, não consigo encontrar um só motivo para trocar meu smartphone que funciona em qualquer lugar do mundo, com dezenas de aplicações ao meu gosto por um brinquedinho bonito. Na verdade, eu sequer tenho essa opção, já que o tal brinquedinho só vai aparecer por aqui em condições que ninguém tem como dizer ao certo.
Espero que isso tudo seja estratégia de marketing baseada em historinhas. Quando se trava um bom produto por questões comerciais, não importa qual empresa ganha, quem perde é o usuário.
Rafael,
é por aí. O iPhone ainda será um produto inovador, mas com o potencial castrado.
De qualquer forma, ainda há muito para acontecer até junho…
…concordo com a preocupação em ter um aparelho revolucionário, porém castrado, mas em se tratando de mercado e suas nunaces é mais correto esperarmos uma boa jogada que irá possibilitar um melhor aproveitamento, até porquê aprender com os erros do passado é uma boa virtude e a Apple já os cometeu.