Exclusivo: entrevista com o hacker do iPhone
05.07.07 2:23
“Tenho quase 30 anos, moro nos Estados Unidos, trabalho na indústria da telefonia celular”.
Esse é o perfil de GJ, “líder” dos hackers do iPhone que entrevistei com exclusividade há pouco, no canal do IRC usado para trocar informações sobre o status da pesquisa do celular da Apple. GJ surgiu desde o início como uma espécie de porta-voz do coletivo que usa um wiki para divulgar a evolução no hackerismo do aparelho.
“Somos 30 no nosso grupo, e pelo menos 200 em todo o mundo. Acredito que o número de hackers possa chegar a 400, ao todo”, contou GJ.
O hacker explicou que a Apple “está ciente dos nossos esforços”, mas que não contactou o grupo ou algum dos programadores em especial. Embora não acredite que a empresa inicie uma briga do tipo gato-e-rato, fechando cada lacuna explorada pelos hackers, acha que a Apple os combaterá “pelo histórico da disputa em relação à quebra da proteção da loja iTunes”.
O iTunes 7.3 tem um update para o iPhone programado para hoje, mas GJ não tem certeza se ele virá. Em tese, ele fecharia as portas que são exploradas pelos hackers.
Em relação aos objetivos colocados para o hackerismo do iPhone, GJ assume que o mais difícil é o desbloqueio do celular para uso por qualquer operadora “porque não é a especialidade central das pessoas que trabalham no projeto. A instalação de softwares de terceiros também será complicada, por não haver um kit de desenvolvimento. Mas não duvide: quando o iPhone for desbloqueado, muitos outros se interessarão em criar programas para ele”.
Perguntei sobre as imagens descobertas entre os arquivos do celular que trazem os logos da T-Mobile e da Vodafone - operadoras citadas como possíveis parceiras da Apple na Europa. Obviamente, GJ também acha estranha a presença das marcas sem um acordo formal, mas diz que o importante é o “erro” da Apple em ter se juntado à AT&T.
“O iPhone não é o que poderia ser. Mas não podemos confundir o desejo da Apple em inovar com o conservadorismo da AT&T. Esse é um dos motivos para que ache que a parceria não funciona. O celular poderia ter sido muito mais. Imagino que seja frustrante para engenheiros da Apple, que gostariam que algumas das funções fossem diferentes. É um produto muito bom para uma primeira versão, mas poderia ter sido melhor executado”.
Para GJ, o principal do iPhone é a amostra de quão avançada a tecnologia da Apple está e para onde a computação irá nos próximos anos.
“As redes de terceira geração são um investimento estratégico. A AT&T ainda não fez esse investimento. Para que fazer se ainda estão faturando com suas redes de 2,5 G, Edge? Me surpreende que a Apple não tenha escolhido usar o iPhone numa rede 3G, experimentando a mesma qualidade da interface com a experiência veloz do UMTS. A Apple deveria ter depositado as esperanças no aparelho como fonte de renda, com o preço apropriado, em vez de apostar na divisão de lucros com os assinantes da AT&T”.
GJ explica que os Estados Unidos apostam no crescimento econômico pela transição tecnológica, que exige troca de equipamentos, de infra-estrutura. “A Apple decidiu balancear essa questão na primeira fase do iPhone. Coisas simples denunciam isso, como a impossibilidade de uso das músicas do iPhone como ringtones. A Apple não permitiu isso porque a AT&T não ganharia nada”.
O hacker defende que a Apple deveria ter lançado o iPhone desbloqueado, sem operadora, e observado a reação do mercado. Defendeu que na Europa isso acontece sempre, e completei que há muitos celulares para compra no Brasil sem o vínculo com operadoras.
Nessa hora, GJ confessou que passou uma temporada a trabalho no Brasil, em São Paulo. E brincou, quando perguntei se ele falava português: “Eu não falo português ou espanhol”, respondeu, pedindo logo para mudar de assunto.
Falamos sobre o wiki. Ao mesmo tempo que atrai os internautas para o esforço dos hackers, oferece as pistas para que a Apple feche as brechas exploradas.
“Há grupos que trabalham em segredo. Nosso coletivo chegou à conclusão de que é melhor mostrar o que está fazendo. É uma ótima ferramenta de aprendizagem. Tenho fé - você pode chamar de ingenuidade - que um dia as empresas perceberão que o design aberto de seus produtos é benéfico para seu negócio. Não digo que não precisamos nos resguardar, mas os usuários hoje querem customização e indidualização. E a Apple é voltada para isso. Se fosse ela tomaria isso como lição. Observe o Google. A liberdade que oferece às pessoas, dentro de limites, traz coisas muito interessantes”.
Perguntei quanto tempo GJ acha que levará até desbloquear o iPhone. “Uma semana. Mas posso estar errado. Há muita gente boa trabalhando nisso, e garanto que o iPhone será destravado. Mas não quero estipular uma data específica. Se você olhar para o consumidor médio, não há vontade de que isso aconteça. Estão satisfeitos com a mudança para a AT&T porque o marketing e o hype do iPhone funcionaram.”
GJ termina a entrevista elogiando os hackers que estão envolvidos no projeto do iPhone. “Estou impressionado com o esforço, inteligência e talento das pessoas. É impressionante ver onde a tecnologia nos leva e como está integrada nas nossas vidas e aprendizado. É positivo, mesmo com os riscos envolvidos. Espero que as empresas e os estudantes de tecnologia tenham coragem de inovar ou pensar grande - ou diferente, como a Apple costuma dizer”.
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Hackers of the world, unite!
Como já dizia nosso querido Waldez Ludwig, “Digitalizou? Lascou!”
Quer que uma coisa seja só sua? Então não digitaliza!
As empresas sabem disto, e deveriam fazer as coisas partindo do pré-suposto de que vai vazar, e não ao contrário.
Agora… gostei da entrevista que vc fez Marcelo, e achei bem interessante as coisas que o gj contou.
O problema todo é o iPhone chegar no Brasil.. até o tPhone vai ser dificil.. Mesmo desbloqueando, tem uma burocracia danada pra habilitar celular gringo no Brasil. Vamos ver no que vai dar..
mandou bem!! Parabéns!
[...] É o que afirma o hacker GJ, líder do grupo que trabalha há dias no novo aparelho da Apple para desbloqueá-lo a outras operadoras - hoje, o iPhone só funciona pela AT&T americana . Meu camarada Marcelo Nóbrega conseguiu uma entrevista exclusiva com GJ e nela o cara revela que seu grupo tem 30 hackers queimando a mufa pra deixar o aparelho, digamos, mais amigável, sem as muitas travas que impedem o usuário, por exemplo, de usar arquivos MP3 como ringtones e baixar programas, entre outras benesses. [...]
[...] Mais detalhes no artigo completo de Nóbrega. [...]
Parabéns pelo feito, amigo. Entrevistar um cara desses deve ser difícil, e é muito bom ouvir a opinião dos mesmos sobre o que e como estão fazendo no iPhone.