11.04.08 1:09 | WEB | 6 Comentários »
Em mais um belo exercício de conhecimento das novas mídias, a Justiça brasileira - no caso a 31ª Vara Civel do Tribunal de Justiça de São Paulo - determinou o bloqueio de um blog hospedado no Wordpress.com sem se preocupar com as consequências.
A Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet) explica que para realizar o bloqueio precisa derrubar o acesso à constelação de blogs do serviço, estimada em um milhão no Brasil. Por isso, a qualquer momento seu blog preferido pode ficar fora do ar, mesmo que trate de assuntos “legais” como bichinhos de pelúcia, Ivete Sangalo ou carros antigos.
Mais uma vez a tecnologia paga o pato. Parece que a Justiça não entrou em contato com os administradores do Wordpress para solicitar a retirada do blog em questão do ar. Se não conseguiu descobrir o link para tal, vai uma ajuda: http://wordpress.com/complaints. Um telefonema para a Automatic, que mantém o Wordpress no ar, também vale: (877) 273-8550.
Pode ser que o bloqueio nunca aconteça e os 999.999 blogs continuem no ar, mas a decisão da Justiça firma a tendência nacional de interpretar a novidade como um risco. Não por acaso, hoje o jogo Bully teve sua importação e venda proibidas porque o game “retrata situações ditadas pela violência, provocação, corrupção, humilhação e professores inescrupulosos, nocivo à formação de crianças e adolescentes e ao público em geral”. Melhor banir também The Sims por permitir a tortura física e psicológica de crianças e adultos. Garanto que não espanquei nenhum professor desde que zerei Bully, no ano passado.
Quando o Futuro.vc ainda engatinhava, Daniela Cicarelli conseguiu retirar o acesso ao YouTube para milhões de brasileiros, por causa de um vídeo que mostrava suas picardias numa praia espanhola. Os internautas se indignaram, a modelo perdeu prestígio e e dinheiro, com o cancelamento de trabalhos. Com o Wordpress, torço para que o senso de autopreservação da blogosfera brasileira se manifeste, usando as armas que tem para mostrar que mão de ferro é coisa para ditatura. Melhor deixar bloqueios coletivos para os chineses.
Popularity: 3% [?]
18.02.08 20:41 | SITES, WEB | Comentar »
Obrigado, COI. O tão generoso Comitê Olímpico Internacional dediciu liberar os atletas para fazerem seus blogs durante a competição - mas só porque é visto como uma forma de “expressão pessoal”, e não jornalismo.
Nos últimos dois Jogos Olímpicos, de Atlanta Atenas e o de inverno, em Turim, os blogs foram banidos. Os acordos bilionários para uso e transmissão do conteúdo das competições - imagens, áudio, vídeo - por empresas de mídia exigem a proibição dos blogueiros, considerados uma ameaça à saúde capitalista dos jogos.
Em Pequim, os atletas blogarão sob restrições. Não podem, por exemplo, tirar fotos ou gravar vídeos das competições - apenas imagens que não contenham “ação olímpica”. Os textos devem se restringir às experiências pessoais. Não duvide que o diário de um atleta envolvido em algum problema - por exemplo uma acusação de dopping - tenha seu blog fechado. Melhor seria reconhecer o potencial cultural e econômico dos blogs dos atletas, que poderiam ser hospedados em uma rede do próprio comitê.
Não há espaço para patrocínios nas paginas e todos os blogs devem se adequar ao espírito olímpico, com “dignidade e bom gosto”. Nada de farras ou detalhes sórdidos dos jogos. Além do cabresto olímpico, os atletas ainda terão que encarar a filtragem estatal chinesa, implacável ao controlar temas que envolvem política e influências do Ocidente.
Popularity: 1% [?]
23.01.08 14:44 | WEB | Comentar »
No Afeganistão ocupado por tropas “aliadas”, uma corte local sentenciou Sayad Parwez Kambaksh, 23 anos, à morte por ter impresso um texto que “humilha o islã” e o levado para debate na faculdade.
Alguns dos colegas de classe denunciaram o rapaz, que foi julgado por um grupo de três juízes. Jornalistas e a mãe de Sayad disseram que ele não teve direito a um advogado. O processo irá para duas cortes de apelação e o jovem, que está preso desde outubro, continuará detido até a decisão final.
Um grupo de clérigos pressiona para que Sayad seja morto. A única forma de escapar da sentença é o perdão do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, já que o jovem admitiu que violou os mandamentos do Corão.
Os “aliados”, obviamente, assistem ao caso de longe, sem influenciar. Dominam o país, mas não querem mais confusão com as milícias tribais que são apoiadas pelos líderes religiosos.
Popularity: 1% [?]
22.01.08 17:57 | GAMES, SOFTWARE | 1 Comentário »
Quatro dias depois da decisão da Justiça Federal em Minas Gerais, a Electronic Arts suspendeu a venda do jogo multiplayer de ação Counter Strike, para PC. Originalmente, o game foi acusado de incitar a violência. “Traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da Organização das Nações Unidas”, declarou o Procon, numa provável alusão à modificação cs_rio.
A Electronic Arts, que distribui o game, obedeceu a Justiça, mas declarou o que qualquer usuário médio de jogos eletrônicos sabe: “A empresa esclarece que itens como traficantes, a cidade do Rio de Janeiro, favela, trilha sonora funk e pontuação extra por matar PMs, não fazem parte do jogo original “.
Uma modificação, ou mod, é normalmente criada pelos jogadores com níveis extras, itens e missões especiais e quase sempre tem download gratuito. Counter Strike, com nove anos de vida, é conhecido pelo trabalho incessante da sua comunidade, que mantém o game vivo e ativo.
Com a decisão, o Brasil perpetua seu triste histórico mundial de proibição de games, que já vitimou títulos como Mortal Kombat, Carmageddon e agora até EverQuest, na mesma tacada de Counter Strike.
EverQuest, por exemplo, foi banido por levar o jogador “ao total desvirtuamento e conflitos psicológicos pesados”. Ao lado de Ultima Online, o game é conhecido por popularizar o gênero de RPGs massivos, com milhares de usuários em simultâneo e um mercado bilionário que hoje é pilotado por World of Warcraft.
Em 2002, o economista Edward Castronova lançou um estudo mostrando que EverQuest tinha uma economia maior que a russa e com PIB superior ao da China. O jogo inaugurou o comércio em dólares de bens virtuais nos sites de leilão.
Seus “conflitos psicológicos” - na verdade a relação com outros jogadores - são estudados como influenciadores positivos na construção da personalidade de jovens e na qualificação da relação interpessoal, como o trabalho em grupo exigido em vários momentos da aventura. Além, é claro, de tudo ser muito divertido. Talvez os censores tenham ficado impressionados ao assistir a um diálogo entre seres verdes de cauda e longas presas. EverQuest tem uma temática medieval, situado na terra mágica de Norrath.
A proibição parece piada e abre uma premissa fatal para qualquer tipo de diversão eletrônica. A série mais vendida no Brasil, The Sims, permite que crianças forcem o suicídio e torturem seus pequenos seres virtuais. Isso é mais ou menos cruel que as sessões de tiroteio de Counter Strike? Team Fortress 2, que citei ontem em outro post, é tão violento como seu similar multiplayer, mas por ser cartunizado é menos realista. Escaparia da censura estatal?
Popularity: 2% [?]